Livros de Carlos Oliveira

ALGUNS LIVROS DO ESCRITOR CARLOS DE OLIVEIRA

alcateiaALCATEIA. O segundo romance de Carlos de Oliveira, »Alcateia« ,foi publicado em 1944, tendo uma segunda edição não revista em 1945. É hoje um livro raríssimo, pois nunca mais foi revisto pelo autor.
O romance traça com grande clareza – e algum didactismo – o retrato da sociedade capitalista liberal, intentando desmontar os seus mecanismos, as suas contradições, a sua hipocrisia – culminantes na imposição do direito não como tradução da consciência moral, mas como instrumento dos interesses das classes sociais dominantes.
A importância determinante dos factores económicos, das consequentes estruturas sociais e da força do egoismo, comandam os comportamentos e os conflitos nas duas séries de personagens – os notáveis de S. Caetano e os ladrões do bando de João Santeiro – e, antes disso mesmo, a transformação dos desfavorecidos e injustiçados em marginais fora-da-lei.
Há personagens brutais, descritas cruamente, psicológicamente distorcidas pelos desfavores da vida e do espezinhar dos senhores da vila. Entre estas, João Santeiro, Troncho, Cosme Sapo, Leandro e Lourenção são os esteriótipos de uma sociedade desigual, e dura como as veredas poeirentas da Gândara, também ela madrasta.  Carlos de Oliveira, in ALCATEIA

abelha-na-chuvaUMA ABELHA NA CHUVA. Obra narrativa de Carlos de Oliveira publicada em 1953. Tal data poderia indiciar uma filiação do autor no movimento do Neorrealismo português. Notemos, porém, como já vem sendo tradicional a propósito deste autor, que essa filiação se verifica tanto como é transcendida. É certo que, na esteira do Neorrealismo, as personagens de Uma Abelha na Chuva surgem integradas numa teia de circunstâncias regidas pelo supremo valor do dinheiro. Mas, para além disso, a orquestração da narrativa funda-se em jogos de focalização interna através dos quais temos acesso ao rumor emocional de cada um dos seus agentes, sendo nessa dimensão interior que assistimos ao desencadear dos momentos de avanço da ação.
A ação situa-se no Montouro, uma aldeia da Gândara, no outono, desenrolando-se em torno de um par principal, Álvaro Silvestre e Maria dos Prazeres Silvestre, dotados de um estatuto social e económico assente no casamento por conveniência que os une, a ele, proveniente de uma família de comerciantes abastados, e a ela, descendente de uma família de fidalgos arruinados. Toda a ação deriva desta relação falhada e estéril, dos seus ecos de frustração, culpa, desejos traídos, pureza perdida, medo da morte, álcool, o apodrecimento de tudo que a própria natureza outonal parece espelhar: «Olhando para tudo, entrevia apenas no palpitar da terra a intimidade decomposta, os sinais da destruição».
Em torno gravitam outros pares, também eles rumando ao outono da sua vida, como o padre Abel, caracterizado como uma espécie de serviçal desta casa rica, e Dª. Violante, senhora que vive (maritalmente?) com o padre e aprecia sobremaneira conversar sobre as vidas alheias, ostentando uma sabedoria toda ela assente nos inúmeros provérbios que conhece e aplica certeira e malignamente a todas as situações com que depara.
Este par costuma passar o serão em casa dos Silvestres, juntamente com um outro, formado por D. Cláudia, fragilíssima professora primária, e o Dr. Neto, médico da região contrastivamente dotado de «um corpanzil de gigante».
Se o par «clerical» surge como uma espécie de índice da corrupção moral daquele sistema social, salientando-se o padre pela sua indiferença acomodada, este segundo par tem uma longa relação «platónica» bastante peculiar: «Por caminhos diversos chegavam ao acordo tácito de que aquele puro amor lhes ia bastando por agora, e um dia que a ciência possa garantir-me uma sã descendência, dizia o Dr. Neto, um dia em que eu me atreva a fitar a crueza da vida, pensava a D. Cláudia, nesse dia, talvez acabassem por casar». Trata-se, no fundo, de uma relação feita mais de distâncias do que de proximidades, o que de algum modo expressa a relação parcial de todas estas personagens com a vida.
Apenas um dos pares da narrativa surge retratado positivamente – Clara e Jacinto. A primeira é filha de mestre António, santeiro concreta e simbolicamente cego (apesar de não gostar que lhe falem dessa cegueira), cuja maior ambição é casar a filha com um lavrador («Desde o nascimento de Clara que embalava o sonho de sair da pobreza pela mão da rapariga, a pobreza, que é a maior cegueira»). O segundo é cocheiro dos Silvestres. Juntos formam o único par ligado por um amor sincero cuja vitalidade parece ser capaz de resistir aos fluxos decomposicionais do outono. Clara, introduzida pelo som do seu riso («A frescura daquele riso pareceu-lhe a da mão cheia de água que se colhe nas fontes»), está grávida de Jacinto, que parece uma «moeda de oiro» «de encontro à noite», como vê Maria dos Prazeres, quando o contrapõe a Álvaro Silvestre, a seu lado, «mole e silencioso», na charrete.
No entanto, o único par que parece dotado de poder de resistência é sacrificado pelos impulsos de ciúme, ambição e vingança das outras personagens. É por acaso que Álvaro Silvestre surpreende, de madrugada, no curral de sua casa, uma conversa entre Clara e Jacinto que, para além de revelar os seus planos de casamento e as razões que o justificam, refere depreciativamente a relação marital de Álvaro com a sua esposa, cujos olhares de desejo e, contudo, de distância não tinham passado despercebidos a Jacinto.
Ávido de vingança, Álvaro acusa esta situação ao pai de Clara, que, sentindo os seus desejos e ambições ultrajados, planeia e executa o assassínio de Jacinto, assistido pelo seu aprendiz Marcelo, a quem alicia prometendo Clara em casamento. A tragédia consuma-se com o suicídio de Clara, «aos gritos, como se tivesse um ninho de vespas na garganta», em face da morte de Jacinto.
São os jogos de focalização interna, «ver cada um com os olhos que tem», como diz o Dr. Neto no penúltimo capítulo, que nos possibilitam uma compreensão da ação, não só porque toda ela depende dos móbeis interiores dos seus agentes, mas sobretudo porque assistimos ao seu desenrolar a partir dos pensamentos destes. É assim que cada uma das personagens afirma a sua individualidade particular, deixando de ser apenas o representante de uma classe social. Contudo, o estatuto individual de cada uma delas não mina a igualdade do seu destino trágico, a sua condição, humana e perecível, indissociável da terra frágil, efémera e ameaçada onde vão gradualmente morrendo, apesar de tentarem viver, como se torna óbvio através da observação final do Dr. Neto, também criador de abelhas: «A abelha foi apanhada pela chuva: vergastadas, impulsos, fios do aguaceiro a enredá-la, golpes de vento a ferirem-lhe o voo. Deu com as asas em terra e uma bátega mais forte espezinhou-a. Arrastou-se no saibro, debateu-se ainda, mas a voragem acabou por levá-la com as folhas mortas».  Carlos de Oliveira, in UMA ABELHA NA CHUVA

casa-na-dunaCASA NA DUNA. Romance de Carlos de Oliveira, publicado em 1943, com versão reescrita em 1980.
Constituída por vinte e nove capítulos curtos, a obra é marcada por várias analepses, por mudanças do sujeito narrativo e por parágrafos curtos e incisivos. A obra descreve a vida dos camponeses e as suas dificuldades económicas, a miséria dos jornaleiros e a vida monótona dos fidalgos. A narrativa centra-se em Mariano Paulo, proprietário de uma quinta, em Corrocovo (corruptela de Corgo Covo), situada no alto de uma duna. Não querendo mecanizar a lavoura, a quinta não lhe é rentável. Esta personagem tem portanto dificuldades em manter a propriedade dos seus antepassados e em subsistir economicamente, o que o leva a lançar-se em diversos negócios, mas sem sucesso.
O filho de Mariano Paulo, Hilário, rapaz conflituoso e perturbado, demonstra desinteresse pela quinta, vivendo preso à memória da mãe falecida. Este jovem acaba por morrer, e a sua morte simboliza a degradação da família.
Integrado no neorrealismo português, o romance procura denunciar a exploração do homem pelo homem, o sistema falacioso da sociedade movida por interesses e regras de mercado e concorrência.
« Na gândara, há aldeolas ermas, esquecidas entre pinhais, no fim do mundo. Nelas vivem homens semeando e colhendo, quando o estio poupa as espigas e o inverno não desaba em chuva e lama. Porque então são ramagens torcidas, barrancos, solidão, naquelas terras pobres » (…)
Carlos de Oliveira, in CASA NA DUNA

 Fonte:  Imagens e Textos (alguns) extraídos do facebook – abril,2014