Procissão dos nus

PROCISSÃO DOS NUS. OS  »ESPÍRITOS ENDIABRADOS »

A apelidação de « espíritos endiabrados », aparecia de modo recorrente, tanto para designar as almas do outro mundo, com as quais as bruxas lidavam tu-cá, tu lá, como para, por metonímia, referir as próprias bruxas.

Em 1904, um « espírito » deu aso a « um caso extravagante » ocorrido no Montouro:

  »Morreu naquela localidade instantaneamente um homem a quem chamavam, não sei se por alcunha, Catroxo. Este alminha de Deus, segundo o vulgo, foi avesso ao antiquíssimo axioma – quem morre, morre, não volta cá – porque, depois de estar morto algumas horas, (dizem dali os ineptos correligionários do Espiritismo) volveu à existência, e o seu « espírito » desde então se introduziu num sujeito qe lhe estava a fazer a barba, a quem eu chamarei, se me for permitido, um desgraçado porque teve a infelicidade de ser traído, não pelo espírito do morto, mas sim por um susto enorme produzido pela ressurreição do cadáver, que o fez divorciar desde então, das suas faculdades mentais.
Começou aquele desventurado imediatamente a influir no génio dos seus conterrâneos: eles a acreditarem que era verdade ser a alma do Catroxo, e ele proferindo, como é natural, meia dúzia de parvoices que acordavam perfeitamente com os mistérios daquela seita espiritista, como aparecer-lhe o tal espírito transformado num gato preto (…)
Daqui a doidice apoiada sobre os limites da fantasmagoria, da crença sobrenatural, avançou mais longe; tratou de convidar, não sei se no mesmo dia ou noutro, diversas pessoas a irem à capela da povoação orar, para assim se afastar dele o espírito que o acometia. (…)
Depois que deram entrada no templo, fechou ele as portas e instou-o a maluquice a dizer mais: « aqui todos têm de se despir, aliás não se salvará a alma do Catroxo… ».
Nesta tentativa foi o homem verdadeiramente feliz; tudo imediatamente se pôs em pelote. Depois, continuando com afã na sua tarefa de médium, subiu ao altar, tirou a santa de seu sagrado ambiente e colocou-se no seu lugar. Os seus sequazes oraram então fervorosamente (…).
Depois deste tão repugnante e impúdico espectáculo, tentaram então entre todos realizar uma procissão particular desde aquele ponto à igreja matriz, tal qual estavam. Mas felizmente, neste último tentame, foram eles infelizes, graças a um honesto e arrojado lavrador que, apenas eles tinham andado alguns metros de distância, lhes saiu à frente, defrontando como Hércules a hidra de Lerna, dizendo: – se ousardes avançar mais um passo, farei justiça com este bordão.
A comitiva, assim que viu frustrado o seu intuito devido à ira, ao rancor que aquele valente homem teve àquele repugnante, imoral e escandaloso cortejo onde também (…) levavam como protectora a Nossa Senhora da Guia, imagem que ali se venera, desmembrou-se rapidamente.
É completamente impundonoroso e horripilante, pois não é, leitores?
Assim o compreendemos. Cruzes, mafarrico!… » (JC 717, 1904) Jornal de Cantanhede
In Construir a memória da região de Cantanhede, Vol.II- A Religião, a Política e as Superstições, capítulo 19, págs. 163 e 164, de Manuel Cidalino Madaleno (nov.2014)