Aviões no Bárrio das Patas

MAIS SOBRE A ATERRAGEM DOS 2 AVIÕES NO BÁRRIO DAS PATAS

aviões aterram no Bárrio das Patas

(Testemunho de quem presenciou estes acontecimentos)
QUANDO UM AVIÃO CAIU NO BÁRRIO DAS PATAS, MONTE-ARCADO (Covões, Cantanhede)

Estávamos a 15 de Fevereiro de 1937. Eu andava na quarta classe. Um avião era coisa rara nunca antes vista! Ainda estava pra chegar a 2ª guerra mundial. Em Campanas, duas mulherzinhas, ao verem passar um avião, ajoelharam-se de mãos erguidas para que não as matassem…
E um dia, um avião avariou o motor e aterrou de emergência no Barrio das Patas, terra de vinhas entre o Monte Arcado o o Covão do Lobo, num descampado barrento que ali havia entre os vinhedos. Na aterragem a hélice de madeira partiu-se e condenou o estranho aparelho a ficar ali durante uns tempos. Os pilotos eram portugueses e foram acolhidos pelo Dr. Manuel Cruz, o médico da terra (irmão da Srª Delfina Cruz, mãe do Sr.Manuel Teodósio que foi maestro da banda dos Covões, muito mais tarde), de quem ficaram amigos para o futuro. O avião tornou-se uma atracção regional! Foram as gentes de Cantanhede, de Mira, da Mealhada, Fonte de Angeão, Parada e de todo o lado! Não houve lugar em redor donde não fossem as gentes ver o aparelho.
No fim dos trabalhos, as pessoas dirigiam-se todas para ali, de longe e de perto. Montaram-se tabernas e barracas de comes e bebes, chouriço e vinho. Era Inverno. Uma grande fogueira consumia continuamente, de noite e de dia. Muitas pessoas passavam ali o dia e a noite. O local tornou-se sitio de convivio, companhia e falatório. Havia sempre muita gente. Não havia televisão nem rádio. O avião juntava ali as pessoas.
Depois de 15 dias de festa, um segundo avião, que vinha trazer a hélice nova para o primeiro, aterrou no mesmo sitio, mas não conseguiu parar antes do fim da carreira e foi partir uma asa num valado. E ali ficaram dois! Entretanto o da hélice partida foi reparado e foi-se embora. E em mais uns dias veio um camião com uma asa.  Em breve o segundo avião partiu também.
Os pilotos ficaram visitas regulares do Dr. Cruz e ofereceram-lhe um cão pastor alemão que ficou lá em casa no quintal. Desmontaram-se as barracas, apagou-se a fogueira, as gentes nunca mais apareceram no Barrio,  Monte Arcado.
Eu ía lá todos os dias no fim da escola ver a máquina voadora, uma coisa impossível de imaginar. Tudo corria para lá para ver o avião. A vida das pessoas passou para ali. Um novo santuário! Por causa de um acontecimento extraordinário! Regressadas à vida normal, eu e as amigas, depois da escola,passávamos no quintal do Dr. Cruz, pra ver o cão, a prova de que tudo aquilo tinha sido mais do que um sonho.

Fonte: artigo escrito?… e partilhado (juntamente com a imagem) no facebook por Cacilda Mariano em 28-11-2015