Consel.º Ferreira Freire

PERSONALIDADE DOMINANTE (CANTANHEDE) NO FINAL DO SÉCULO XIX

Conselheiro Ferreira Freire

CONSELHEIRO JOSÉ LUIZ FERREIRA FREIRE.
Na Relação e Indice Alfabético dos Estudantes da Universidade de Coimbra  referente ao ano lectivo de 1864-65, é referido, como aluno do 4º ano de Direito « José Luiz Ferreira Freire, filho de Eusébio Luiz Ferreira, natural de Tentúgal – distriro de Coimbra.
Enquanto estudante, a sua residência seria na rua das Cozinhas, nº8 em Santo António dos Olivais – Coimbra.
Os jornais concelhios são omissos em referências ao passado de Ferreira Freire até ao momento em que este assentou a sua influência no concelho de Cantanhede, a partir da localidade de Portunhos, para a qual foi residir.
O conteúdo dos artigos publicados torna, no entanto, possivel asseverar que o início da sua carreira política se estribou num rol de amizades que integrava as pessoas socialmente mais influentes e com maiores meios de fortuna nos concelhos de Cantanhede e de Mira e sistemáticamente a vitória em eleições, quer no círculo eleitoral para deputado, quer quando se candidatava ao Executivo Municipal de Cantanhede.
Encontra-se documentado que, em 1878, era simultâneamente presidente da Câmara e deputado da Nação, embora não seja possível determinar-se desde quando. Sabe-se apenas que, pelo menos desde a década de 1870 até 1910, fez parte de vários executivos municipais e que foi, neste mesmo período, eleito deputado, sempre pelo Partido Regenerador, a última vez das quais  seis semanas antes da implantação da República. (1910)
Após aquela mudança de regime, retirou-se da vida política, vindo a falecer em 31 de Maio de 1920.
Na relação tributária publicada em 1892, era o 2º maior contribuinte do concelho, com 84$856 reis, atrás de Alberto Ferreira Pinto, do Rol (218$673). (Jornal de Cantanhede, #93 de 1891)
Na reunião do conselho de Estado de 28 de Maio de 1906, foi nomeado Par do Reino.( 1 )
Sendo uma personalidade muito respeitada, o facto de ganhar sistemáticamente as eleições valia-lhe o acirramento de seus adversários do Partido Progressista, que o  acusavam de usar de todos os expedientes caciquistas e de nunca ter defendido no Parlamento os interesses do círculo eleitoral. Chamavam-lhe, aliás, o pato mudo, alegando que, em décadas de deputação, não havia registo de discurso algum que tivesse pronunciado na Assembleia:
Os seus amigos, de uma dedicação cega e sem limites, trabalhavam e gastavam as suas fortunas (para lhe arranjar votos)enquanto ele, (…) gozava o dulce farniente dos sonhadores (…). Foi crescendo em importância devido a essa plêiade de amigos dedicados, e lá em cima, sem se lembrar mais dos que o lá colocaram, sem pensar que era preciso uma amizade, uma simpatia verdadeiramente extraordinária da parte dos seus amigos, para o deixar fazer o seu papel de Pato mudodurante doze sessões legislativas sucessivas (jornal Defensor do Povo #41 de 1889).
Aludindo reiteradamente a esta faceta, a ele se referiam, frequentemente com grande ironia:
Consta-nos que, a pedido do idiota Bateforte (*) vão ser publicados em folhetim no Jornal de Cantanhede os discursos proferidos no Parlamento pelo sr Dr. José Luis.
O Defensor do Povo passava mesmo os limites da ironia chamando-lhe pato mudo barredor das casas de São Bento e escrevendo que o dia em que ele perdesse as eleições seria um dia memorável para Cantanhede, ipso facto, e para o Parlamento (seria) um dia triste porque Ferreira Freire nunca mais falaria (Defensor do Povo #64, 1889).
Aliás, a ser verdade, esta atonia de Ferreira Freire enquadrar-se-ia simplesmente naquela que seria a atitude de passividade comum aos deputados de então, confortávelmente instalados na vida, e que valia ao Parlamento a alcunha de O Solar dos Barrigas (Jornal de Cantanhede #346, 1896)
In « Construir a Memória da Região de Cantanhede », cap. 6; pags. 55-56-57, da autoria do prof. Manuel Cidalino Madaleno.

Informação:
( * ) Pseudónimo sob o qual foram publicados, no Jornal de Cantanhede, vários artigos em defesa de Ferreira Freire.
( 1 ) Par do Reino é um membro do Pariato, um sistema de honras ou de nobreza em vários países.
Em Portugal, embora tenham existido pares do reino desde o século XVII, foi a designação dada aos membros da Câmara dos Digníssimos Pares do Reino, o segundo braço do poder legislativo ou câmara alta do parlamento desde a Constituição portuguesa de 1822 até à revolução republicana de 5 de Outubro de 1910, exceptuando-se o período de vigência da Constituição portuguesa de 1838, durante o qual houve em seu lugar Senadores do Reino.
Fonte desta última informação: Wikipedia