As terras da Gândara

AS TERRAS DA GÂNDARA

Gândara é uma palavra que na toponímia portuguesa se aplica a « qualquer porção de terreno arenoso, inculto e geralmente plano ou pouco relevado »

gandaraA região gandaresa estende-se no sentido norte-sul desde as Gafanhas da ria de Aveiro até aos campos do Baixo Mondego; a nascente confina com as terras da Bairrada e a poente com as dunas do litoral. É esta vasta sub-região de terrenos arenosos que, aqui e além apresenta alguns afloramentos isolados de calcários ou margas, que pretendemos dar-vos a conhecer. Destas terras agrestes e insópitas, sempre se falou realçando a sua pobreza contrastante com os campos do Mondego e da Bairrada, onde os solos de grande fertilidade proporcionavam melhores condições de vida. Os terrenos de cultivo têm-se obtido à custa de grande esforço dos gandareses que, ao longo dos tempos, têm adubado estas areias com o estrume dos currais, a caruma dos pinheiros e uma ou outra paveia de mato. Assim se foi enriquecendo o solo onde hoje se cultiva uma diversidade de espécies, o que muito foi atenuando as diferenças entre as regiões vizinhas. Hoje pratica-se uma ocupação permanente do solo, semeando-se milho de rega, associado ao feijão e à abóbora: estas culturas entram em rotatividade no Outono-Inverno com as forragens e a batata. Os pastos para o gado estão ligados a uma rentável actividade da região – a criação de gado bovino; este, além de ajudar no amanho das terras, produz o precioso leite que dá à região uma importância relativa na produção do sector dos lacticínios.
Grande parte da Gândara está coberta por manchas de pinhal, espécie tão bem integrada neste solo arenoso e que confere à paisagem aquele sentido de « horizonte limitado ». Implantam-se também alguns pomares, olivais e vinhas, havendo mesmo freguesias que se incluem na região demarcada da Bairrada.
Das influências depressivas deste solo « ingrato » no aspecto físico do gandarês, sempre se fizeram referência em escritos antigos:  » homens secos de carnes, esguios, rostos amarelecidos ». Contudo, eram alegres na garridice do trajar e nas danças e cantares com que animavam os arraiais e romarias em redor, a que nunca faltavam.
Os trabalhos sazonais eram também motivo de folguedo, especialmente os que aconteciam na eira por altura das colheitas dos cereais (o milho, o trigo, ou o pão-macho). Todos estes trabalhos exigiam longos rituais que envolviam grande parte das gentes da aldeia, que assim iam ganhando o pão para o dia-a-dia, ou simplesmente a garantia de braços para o dia da sua safra.

O TRIGO
Na madrugada dos meses estivais de Junho e Julho era vê-los, grupo de rapazes e moçoilas rumo às cearas maduras para cegar (ceifar) com os seus foicinhos o trigo ou o pão-macho, pois os pardais já arrecadavam parte do grão. Um vez ceifado, eram feitas paveias atadas com baraços feitos dos próprios pés de trigo.
Carregados em carros de bois para a eira, umas sestas passadas e o trigo está ptonto para a malhadela – ritual monótono, timbrado e em que a força masculina sobressaía.
Separados grão e palha, enquanto uns erguem ao ar o cereal para ser limpo, outros tratam já da palha. Esta, depois de feita em paveias, era içada com os forcados para a construção do palheiro.

O MILHO
Trabalho moroso era o do milho, mas era na sua descamisadela que o trabalho e o folguedo mais se confundia. Nela surgiam as conversas, os mexericos, as cantigas, as desgarradas, as modas de roda e até os namoricos. E assim, estas árduas tarefas logo eram amenizadas por esta gente nova que se transformava em Arraial Gandarês.
Cortado na terra, o milho era transportado em carros de bois para junto da eira, a sua descamisadela era tarefa demorada mas agradável: ora por decorrer à sombra duma frondosa árvore (e por vezes ao luar), ora por propiciar o convívio entre os trabalhadores.
Cheios os poceiros estes eram carregados aos ombros por robustos namoradeiros de tés morena e dura, calejada pelo sol de estio.
Alguns homens tratavam já da palha colocando-a na cibana ou no palheiro, de forma a guardar da chuva o folhelho e a maioria da folhagem, não fosse uma trovoada por em risco a safra. As moçoilas ajuntam-se-lhes para lhes darem a palha nos forcados ou para a ajeitarem para os lanços.
Ao cair da tarde a hora da merenda era um outro momento de lazer: estendiam-se as toalhas de linho num canto da eira e recheavam-se com a sardinha de escabeche, a torta com sardinha ou carnes gordas, as azeitonas e pouco mais; de quando em vez, a goela era refescada pela cabaça que corria de boca em boca.
Passadas umas sestas sobre as espigas doiradas, estas estavam prontas para malhar. Homens e mulheres dispostos frente a frente, malhavam as espigas em pancadas ritmadas durante uma hora ou mais.
Algumas mulheres juntavam-se ao conjunto descarolando o que restou da malhadela. Mais umas sestas na eira e o milho estará pronto para ser limpo – há que aguardar uma nortada de feição para que ao padejar sejam retiradas todas as impurezas.
As mulheres desempenhavam agora um papel minucioso: com as suas vassoiras de rameiras ou giestas, varriam os carolos maiores; outras crivavam e joeiravam. Finda esta etapa, o milho estaria pronto para ser medido, ensacado e guardado na casa da eira, onde uma enorme arca de madeira o aguardava.
Cumprida a tarefa, o cansaço de dias teria de ser recompensado. Feita a adiafa era servida uma bucha (um alguidar de papas de abóbora, filhós e jerupiga) pelos patrões agradecidos, que davam então ordem para que a diversão começasse. E assim começava o arraial para amenizar as canseiras destes gandareses incansáveis.
E assim seguia noite dentro o insulto, ao som do sanfono, onde rapazes e raparigas bailavam à voz do mandador.
Surgiam as modinhas de roda, as cantigas ao desafio ao som da sanfona, os viras e os verde-gaios. Os mais arrojados surgiam do escuro com a alma e o jeito próprio do cantar ao desafio – « à desgarrada » e assim, de improviso, entoavam versos durante a noite inteira:

HOMEM
Ó minha galinha riça
Filha do meu galo branco
Desafiaste-me p`ra cantar
Agora ficas ao canto
MULHER 
Cala-te lá boca aberta
Qu`estás pr`aí a dizer
Um homem que me dê afronta
`inda está p`ra nascer

Créditos ao GRUPO TÍPICO DE CADIMA
Texto de Natália Gomes